MARY WARD: MAIS UMA VEZ A FUNDADORA DO FUTURO

Os muros medievais de York traduzem uma imagem apta para uma consideração sobre Mary Ward, que nasceu, viveu e foi sepultada em Yorkshire e que se encontrou muitas vezes “mais fora dos muros” que dentro deles. Ela quis iniciar uma forma de vida religiosa feminina sem a tradicional clausura, sem muros. A Igreja oficial reagiu rejeitando não somente a idéia mas também a fundadora mesmo. O episódio mais doloroso de sua vida foi encontrar-se prisioneira, acusada de heresia, rebelde e cismática pela igreja que ela amava e à qual devotava sua vida. Ela foi reconhecida antes de sua morte, mas o trabalho “fora da clausura” ainda permaneceu por muitos anos sem licença e seu nome proibido de ser mencionado em conexão com o Instituto que se empenhava em permanecer fiel à visão que ela teve. Ainda no século vinte vemos que seu trabalho ainda está no coração da missão da igreja.

UMA POSIÇÃO PRECÁRIA

A compreensão da vida religiosa para Mary Ward é a realização de um apostolado ativo formado por sua contemplativa resposta a Deus, que a chamou pessoalmente para seu serviço e pela família, educação, envolvimento e cultura que nortearam sua vida.

No século XVI a posição dos católicos na Inglaterra era precária. Os estatutos Parlamentares reduziram os direitos civis, liberdade e status: o testemunho dos mártires incrementou sua fé e esperança. Em 25 de março de 1586, quando Mary tinha catorze meses de idade, Margareth Clitherow foi brutalmente condenada à morte em York por dar proteção aos padres e por viver uma vida de católica ativa. A avó de Mary, a senhora Úrsula Wright, passou catorze anos consecutivos na prisão da cidade por causa da fé. Grace Babthorpe, prima de Mary, com quinze anos passou dois anos na prisão. O tormento dos católicos em forma de tratados, pressões sociais, encarceramento e perseguição foi sistematicamente orquestrado em favor da Coroa pelo duque de Huntingdon, presidente do Conselho do Norte desde 1572 até 1599. Os Wards não escaparam de sua atenção e como seus parentes e os amigos fizeram o possível para não entrar em confronto com as autoridades, enquanto faziam tudo o que podiam para manter sua integridade. É significativo que o batismo de Mary não seja registrado ao lado de seus irmãos, na catedral de Ripon: o dela não está lá, assim como seu túmulo em Osbaldwick não está assinalado. São aspectos da era de perseguição.

Nada ilustra melhor que a própria experiência de Mary na infância. Teve que se estabelecer em quatro diferentes casas, algumas vezes com parentes próximos, outras com os avós ou primos em outras partes de Yorkshire.
Ela nasceu em 23 de janeiro de 1585, tradicionalmente em Mulwith, perto de Ripon, onde seu pai possuía uma pequena propriedade; ele tinha também casas nas vizinhanças, como Newby e Givendale, e trabalhava como administrador em Spofforth, no castelo perto de Knaresborough em 1590. Mary era a mais velha dos seis filhos de Úrsula e Marmaduke Ward. De suas irmãs e irmãos, Bárbara e Elizabeth adotaram a vida religiosa, Frances tornou-se Clarissa e George Jesuíta. A breve vida de Mary Ward, escrita por Mary Poyntz e Winifred Wigmore, lembra que David morreu aos dois anos. Quando ela tinha cinco anos, foi mandada para a casa da avó em Ploughland em Holderness, leste de Yorkshire. A velha senhora influenciou a neta profundamente. Depois de 25 anos mais tarde, Mary ainda a recordava contando detalhes:

“Quando fui ficar com ela, ela recém havia saído da prisão e vivia calmamente em casa... era uma grande mulher de oração: durante os cinco anos eu nunca a vi dormir, eu sempre a encontrava em oração. Ela mandava esmolas para os prisioneiros católicos, muitas vezes em secreto e durante anos. Uma vez eu a ouvi dando ordens aos empregados para que matasse frangos para esses prisioneiros. Eu tinha ganhado dela alguns franguinhos e os estimava muito. Eu estava desapontada por me desfazer deles e, longe de ser virtude, mas só para parecer virtuosa frente à minha avó, eu lhe pedi que os mandasse também para os presos. Ela ainda insistiu que eu os deixasse, pois gostava deles, mas eu respondi que eu queria fazer o presente. Ela ficou muito comovida com meu gesto, mas na realidade que só queria fazer boa impressão..."

Autobiografia: capítulo 1º

 A sinceridade de Mary pela própria motivação, é uma de suas principais características. Não se trata de santidade desde o berço, mas de alguém que teve que batalhar com seu temperamento, com as pessoas que eram contrárias às suas intenções e as circunstâncias de seu tempo. As virtudes da honestidade e sinceridade, que tão firmemente nortearam sua própria espiritualidade, começaram a ser traçada em sua personalidade desde os primeiros anos:

Eu tinha pouca inclinação para a virtude naquele tempo: quando minha avó me sugeria que fizesse oração, eu me sentava lá e passava o tempo sonhando alto...”

O avô Robert Wright morreu em 1595 e ela retornou a Mulwith, onde morou por algum tempo com uma prima, Catherine Ardington em Harewell até 1600. Nesse tempo as penas contra os católicos se tornaram tão severas, que seus pais tiveram que se mudar para o norte. A saúde de Mary sempre foi fraca, viram-se forçados a tomar a decisão de deixá-la com os primos em Osgodby, no sul de Yorkshire, não muito longe de Selby.

VOCAÇÃO

“Deus teve pena de mim e minha ansiedade deu-me coragem para reagir comigo mesma: estas coisas não são obrigação, mas devoção. Deus não se agrada por atos feitos sob compulsão ou só para satisfazer-se a si mesmo. Daqui a diante agirei somente com amor e liberdade.

Ela estava aprendendo “a liberdade de referir tudo a Deus”, especialmente na incerteza. Seus pais poderiam não consentir em seu desejo de entrar na vida religiosa; seu pai estava convicto que ela serviria melhor a Deus e ao catolicismo fazendo um bom casamento e constituindo família. Tentou convencê-la apresentando-lhe uma série de pessoas elegíveis, mas ela reagiu:

"Quando eu tinha 15 anos, recebi o chamado para a vida religiosa, graça de Deus da qual nunca duvidei. Embora meus pais fossem piedosos, recusaram-se a aprovar minha escolha de vida. Eu era a mais velha e muito estimada por meu pai. Assim tive que permanecer na Inglaterra por outros seis anos, quando fiz 21 anos...”

Ela cumpriu o desejo dos pais até que completou a idade em que pode escolher por si mesma seu estado de vida.

O CLAUSTRO

”Eu não tinha preferência por uma ordem ou por outra, exceto que me parecia que a maior perfeição poderia ser encontrada num modo mais austero. Nessas circunstâncias, eu penso que a pessoa não deve dar-se pela metade, mas entregar-se totalmente a Deus, e eu não posso entender como uma religiosa não faça o melhor, eu estou decidida que tudo o que eu fizer, será feito na totalidade, e não pela metade”.

Carta ao Núncio Albergati 1620

 Ela havia isolado o problema, pois não havia nenhuma ordem religiosa para mulheres, na vida ativa agindo em prol dos outros, como aquelas mulheres de York. Certa do chamado de Deus e que o casamento estava fora de seus planos, escolheu a única opção aberta: escolher a vida monástica no exílio. Em 1606 ela dirigiu-se ao convento das Clarissas Pobres em St. Omer, Flandres, para começar o noviciado numa ordem enclausurada. Não tinha o desejo de fazer outra coisa, como lembra na sua autobiografia:

E em sua carta ao Núncio Albergati admite que a vida apostólica traz algumas atrações:

“Eu estava muito feliz com a vida de exclusão e austeridade, e, conforme me lembro, nada poderia me perturbar ou me tirar a paz, ou causar-me tentação, exceto que o meu desejo era de procurar a ordem mais severa na Igreja...”.

Autobiografia - capítulo 6

 

UM NOVO TIPO DE COMUNIDADE

Depois de dezoito meses, Mary deixou as Clarissas, sabendo que Deus a chamava, mas não estava claro para o quê. Ela retornou à Inglaterra “para fazer aquele outro pedido por Deus, para o bem do povo” , como ela escreveu. Entendeu bem quanta ausência de saber na fé como também o tradicionalismo na religião. Ponderou seu próprio chamado ao serviço de Deus e de todos os demais, começou a perceber que a educação católica era vital para a vida da igreja, principalmente se as mulheres, mães e educadores, ensinassem as crianças na fé, seria o primeiro passo.
Em 1609 retornou a St. Omer com outras jovens de mentes abertas. Formando uma pequena comunidade de vida austera, com muita oração e penitência, a fim de perceber que regras de vida adotariam. Mantinham-se pelo ensino livre e mantendo meninas inglesas que vinham educar-se no continente. A todas eram ensinadas “qualidades que poderiam ser colocadas no serviço de Deus em qualquer estado de vida, religiosa ou secular”. (Breve relação).

O bispo Blaes de St. Omer, amigo e aliado, estava ansioso para que Mary escolhesse uma regra para sua comunidade. Nenhumas das regras tradicionais foram aceitas por ela. Estavam convencidas de que a vida enclausurada não lhes daria condições de trabalhar na Inglaterra – seu primeiro anseio nessa época. Essas regras não eram aptas a manter um tipo de vida entre perseguições aos católicos, “vinho novo em odres novos”. (Mt 9,17).
Depois de uma séria doença em 1611, subitamente recebeu a clareza que buscava e pela qual rezava. Aquele “outro” tornou-se claro para ela – pois o tipo de vida delas deveria ser o mesmo tipo de consagração que Santo Inácio de Loyola havia adotado para a Sociedade de Jesus, setenta anos antes: a vida apostólica ativa no mundo, servindo à Igreja e ao mundo onde fosse necessário e para a Maior Glória de Deus.

Em termos práticos, isto significa um modo de vida religiosa para mulheres, nunca antes praticado na Igreja: os membros deste novo Instituto estariam livres da clausura, com mobilidade e liberdade para trabalhar onde eles discernissem ser de maior necessidade, em qualquer meio ou lugar. Isto implicava que elas teriam que ter liberdade, sem estar presa à reza do oficio divino, no coro, em horas fixas. Deveriam ser formadas nos Exercícios de Santo Inácio, que as preparasse para rezar quando e onde houvesse oportunidade; elas deveriam ser contemplativas num mundo ocupado, sem as estruturas monásticas tradicionais até então. Finalmente, Mary decidiu que não teriam também uma ordem governada por homens. Mulheres seriam governadas por mulheres, somente dependentes do Santo Padre, no modelo Jesuítico.

TEMPESTADE DE PROTESTOS

Uma tempestade de protesto levantou-se de todos os quadrantes da Igreja: mulheres não poderiam viver sem a salvaguarda da clausura. Mulheres eram incapazes de se autogovernar. Onde se ouviu dizer de mulheres em missão? Tentando passar sobre o papel dos padres, o que eram elas? Jesuitinas? Mulheres a galope? Mexeriqueiras? Andarilhas? E eram severamente censuradas por deixar suas alunas falar em público e em passeios.
A situação ficou complicada. Primeiro Roma estava em nervos; este grupo de mulheres está pedindo uma coisa nunca ouvida ou vista na Igreja e sua história, num tempo em que a política Tridentina fechava as portas às novas iniciativas ou reformadores. Segundo, na Inglaterra as relações entre o clero regular e os jesuítas andavam estranhas: o clero regular ressentido com a aparente mobilidade das ordens religiosas e o rigoroso treinamento intelectual dos jesuítas. Mary reivindicava a espiritualidade da Sociedade de Jesus e não submeteu ela mesma e nem o Instituto ao clero do lugar. Mesmo os jesuítas estavam pouco seguros quanto às intenções dela: eles não podiam acreditar que ela pudesse ter a intenção de copiá-los em serviços e deveres.

Mary valorizava muito sua independência para ouvir tudo isso! E finalmente uma crítica sucinta colocou Mary e seu grupo como sendo “somente mulheres”, e que o fervor e o entusiasmo eram passageiros. “Fervor é o desejo de fazer alguma coisa boa e bem feita, é uma graça livremente dada por Deus, que nos predispõe para Ele e seus trabalhos, que são quase imerecido, por cada um de nós. É também verdade que o fervor se esfria, muitas vezes, mas por quê? Porque somos mulheres? Certamente não. Talvez por sermos mulheres pecadoras, neste caso não somos diferentes do sexo oposto. Não é por sermos mulheres, mas sim por ser mulheres imperfeitas, que muitas vezes não seguimos a verdade, quem de nós não tem sempre procurado a verdade, mas estamos contentes em procurar viver sem defeito. Veritas Domini manet in aeternum: “a verdade do Senhor perdura para sempre”. Note que não é a verdade dos homens, nem das mulheres, mas a verdade divina que é compartilhada para as mulheres e homens. Se o fervor decair, não será porque somos mulheres, mas porque não vivemos totalmente a verdade do Senhor...
Vemos assim que a respeito do fervor não há diferença entre os sexos. Mulheres podem fazer grandes coisas para Deus, como se vê pelo exemplo de tantas santas. Cremos sinceramente que as mulheres ainda farão muito pelo Reino de Deus...

Esta é a verdade: fazer bem o que temos de fazer mesmo nas coisas simples. Muitas pessoas não prestam atenção às coisas “simples”. Fazer bem as coisas ordinárias é manter nossas Constituições, como também aquelas de algum ofício maior: fazer bem: este é o nosso caminho, assim por graça de Deus nós manteremos o fervor...
Eu reconheço que mulheres possam se submeter a seus maridos: que os homens mantenham a autoridade na Igreja; que as mulheres não estejam autorizadas a administrar sacramentos, nem fazer pregações públicas e outras coisas mais. Em que consideração somos a tal sub-espécie da humanidade, para que eles usem o termo “somente mulheres” para nós? Como se fôssemos de qualquer modo subordinadas a uma outra espécie da criação – que suponho ser os homens. Estou segura em atestar que isto é uma inverdade e com respeito ao bom padre, um erro sério. Estou certa de que poderemos fazer coisas grandes em grandes momentos, se somente acreditarmos que somos capazes e não somente por sermos “somente mulheres”...

"Eu ouvi de um padre da Sociedade que chegou em Londres, que ele não queria nem por mil mundos ser mulher, porque ele pensava que a mulher era incapaz de conhecer a Deus. Eu poderia contar a ele minha experiência e afirmar-lhe o contrário, mas desisti com apenas um sorriso, pois ele é um homem bom, com julgamentos errados...
Assim mulheres são tão capazes de ser santas como os homens, se amarem a verdade e procurar conhecimentos. Deus é verdade, e sabemos que Deus quer nossa contribuição. Lembramos que Ele é o começo de todas as nossas ações e você encontrará grande paz se acreditar que as coisas são possíveis...”

PLANOS

De 1611, quando entendeu na oração que sua regra deveria ser a mesma da Sociedade de Jesus, começou um trabalho da mesma forma em seu Instituto. O plano de 1612 (Schola Beatae Marie), procurava liberar a comunidade para “os serviços da caridade cristã à vizinhança, mas não podia ser confundida com vida monástica.” Era bem diferente do tipo de vida que ela tinha experimentado com as Clarissas. Num memorial apresentado ao Papa Paulo V em 1616, ela ainda solicitou aprovação para “seu tipo misto de vida”, com fortes características das Constituições Inacianas, tanto no trabalho como na prática espiritual. O objetivo do Instituto está claramente estabelecido: “trabalhar na perfeição de nossa própria alma e devotarmos também a salvação de nossos semelhantes pela educação das jovens, e qualquer trabalho que podemos fazer para promover a maior glória de Deus, e propagar nossa santa madre, a Igreja Católica”. (Ratio Instituti – 1616).

Em 1621, encontrando as autoridades em Roma relutantes em responder e seriamente empenhada em colocar seu Instituto sob o controle oficial, Mary resolveu que só uma coisa poderia ser feita: ir à Roma pessoalmente falar com o papa face a face, com a versão final da regra nas mãos. Esse terceiro plano não era menos que a Fórmula Instituti dos Jesuítas, quase palavra por palavra. Este documento, uma espécie de predecessor das Constituições da SJ, estabelecia “a estrutura fundamental da nova ordem e autorizava Inácio, como geral, a estabelecer o conselho de seus companheiros, determinações mais detalhadas dos estatutos chamadas Constituições.”

Em outubro de 1621, Mary saiu de Bruxelas com cinco companheiras e dois cavalos, um para a bagagem outro para a que estivesse cansada de caminhar. Elas cobriram as quinze centenas de milhas em dois meses e chegaram em Roma pelo Natal de 1621. O papa Gregório XV recebeu-as com cortesia e prometeu que uma comissão de cardeais poderia olhar o assunto. Foi-lhe permitido abrir uma escola em Roma e em poucos anos fazia fundações em Nápoles e Perúgia. As escolas “comuns” eram livres: as internas na “casa” pagavam o que podiam para ajudar nas despesas.
Foram anos difíceis para elas: como os prospectos oficiais demoravam a sair, os parentes e benfeitores começaram a relutar em investir em tão insegura empresa. Mary escreveu a amigos, em 1624, que a casa de Perúgia “precisava de portas e janelas”; a uma candidata foi pedido para que trouxesse a própria cama com ela. As cartas de Mary Ward, muitas vezes incluíam pedido de doações. Uma delas havia sido roubada em 30 libras e Mary tentou conseguir doações com Susanna Rookwood, em Nápoles, mas a comunidade lá também estava em apuros. Quando ela conseguiu soube aplicar nas necessidades emergentes.

“HERÉTICA”

Oposições choviam contra ela já em 1620 e nos seguintes anos e chegou ao máximo em abril de 1625, quando suas casas na Itália foram fechadas por um decreto papal. As razões para este papa agir assim eram: o tipo de congregação que elas pretendiam, a regra adotada e a ausência da clausura, acima de tudo – ao contrário do Cânon de Leis formulado pelo Concílio de Trento.

Vendo que não havia mais nada a fazer em Roma, decidiu voltar à Inglaterra – via Munique, quando encontrou boas vindas amigáveis do Eleitor Maximiliano, que a ajudou a encontrar uma casa na cidade. Dali foi até a Áustria, Hungria e Boêmia. Suas viagens, muitas e longas, quase sempre a pé. Hoje seus sapatos de peregrina e os chapéus usados são orgulhosamente mostrados na casa do IBVM em Altötting.

Em 1631 as autoridades puseram um basta em suas viagens: foi condenada e aprisionada pela Inquisição como “herética, rebelde e cismática da Santa Igreja”. Por dois meses permaneceu reclusa nas Clarissas Pobres no Convento de Anger, com uma companheira, negado-lhe os sacramentos, extremamente doente e incapaz de comer. Mas seu espírito era insaciável. Comunicou-se com suas amigas e companheiras em Munique, usando o papel no qual elas embrulhavam roupas e alimentos e escrevia com suco de limão que era tinta invisível – o disfarce favorito dos prisioneiros no século XVII. Ela solicitava a obediência delas e reanimava seus propósitos e orações. Elas estavam confiantes por sua liberdade, se isto se realizasse ela iria carregada para Roma e exporia pessoalmente seu caso diante de Urbano VIII:

Se eles intentam me matar, podem fazer isso onde quiserem, nós somos estrangeiras e não temos nem amigos influentes, nem mesmo casa. Mas aqui ou lá, não faz diferença: se Deus chamar-me para Ele, eu não quereria viver. Afinal, viver ou morrer por Deus, ou sofrer por Ele, são ambas bênçãos singulares, mas eu espero em Deus”.

(Carta, 15 de fevereiro de 1631).

Pedidos pela sua liberdade foram endereçados à Santa Sé e, finalmente, eles não estavam preparados para a reação de Mary. Em sua última carta de suco de limão à secretária Elisabeth Cotton, ela implorou-a a convencer o Eleitor e sua esposa, que tinham sido instrumentos de sua libertação, mas que dissesse à mulher dele que ela gostaria de passar o domingo de Ramos na prisão e na segunda-feira ela sairia depois do almoço, como fosse melhor...”

SEU TRABALHO SOBRE RUÍNAS

Verdadeira sua intenção, ela fez a viagem de volta a Roma para provar sua inocência a Urbano VIII, que a recebeu amavelmente, mas o Instituto tinha sido suprimido pela Bula de 1631, permanecia oficialmente “morto”. Mary e as companheiras tiveram licença para viver e trabalhar em Roma, numa vida em comunidade, renovando seus votos em Santa Maria Maior a cada ano, diante do ícone de Santa Maria, Salus Populi Romani. Embora o Instituto tivesse cessado de existir, havia ainda membros em ação no norte da Europa, com os quais Mary correspondia em códigos elaborados. Ela se chamava Phillis ou Felice, Margery ou “a velha senhora”; Elisabeth Cotton era James, o Eleitor e sua esposa “o moleiro e sua companheira”, as escolas sobreviventes eram “abelhas” ou “tapetes”.
Mary tinha que fazer frente à ruína de tudo o que ela tinha construído pelo trabalho, sem mencionar a ansiedade que sentia pelo paradeiro das companheiras com quem havia perdido o contato durante a guerra que arrasava a Alemanha. Sua saúde era péssima, mas sua inata delicadeza, nascia da absoluta confiança e dependência de Deus, assim continuava a confortar suas amigas:

Querida Winn,
Cuide de sua saúde, sem a qual ninguém pode fazer aquilo que deve ser feito aqui ou em qualquer lugar. Obrigada, Senhor, por tudo: eu nunca tive tão pouco em toda minha vida...

Para economizar papel ela escrevia nos lados:

“Eu devo estar contente com as beiras deste papel. Quantas Gerais depois de mim deverão passar por isto? Reze por mim, eu preciso não de esmola, mas à vontade de Deus é o melhor...”

RETORNO AO LAR

Em 1637, vendo que nada mais havia a fazer estando em Roma, decidiu viajar de volta à Inglaterra, uma enfadonha e dolorosa viagem, pois ela sofria muito com pedras na vesícula, agravada pelas condições em que ficou na prisão. Parou em Spa para tratamento de águas, indo para Liége e St. Omer, para saber o que havia acontecido com suas comunidades lá. A Bula de Supressão havia agido ali com rigor e poucos traços de florescente Instituto ali permaneciam.

De Londres, aonde chegou em maio de 1639, escreveu a uma das irmãs em Roma, expressando seu desejo:

“... nós devemos estabelecer escolas comuns na grande cidade de Londres...”

Estabeleceu residência em St. Martin Lane com a ajuda da rainha Henrietta Maria, que ajudou ativamente na renovação de seu trabalho “o maior bem para este pobre país...”.

Com mais três anos a pequena comunidade se mudou novamente. A guerra civil começara, o Parlamento tomou a capital e os católicos eram forçados a sair. Em três carruagens, Mary e suas ajudantes se moveram rumo ao norte, país de suas origens. Em 14 de setembro de 1642 se estabeleceram numa casa em Hutton Rudby, não muito distante do Priorado Catusiano de Mount Grace, onde havia uma capela da Virgem no alto da colina.
A batalha de Marston Moor e o cerco de York impeliram de buscar segurança dentro dos muros da cidade. Ali ficaram seis semanas, retornando então para a pequena vila de Hewarth. Aqui sua saúde piorou rapidamente. Mary Pointz escreveu a Bárbara Bapthorpe:

“Seu declínio começou no dia de Todos os Santos e, pelo Natal, sentia grandes dores, que a incapacitaram de mover-se ou descansar. Eu penso que ela ...”

Bárbara Bapthorpe, sucessora de Mary como Superiora Geral do Instituto embora suprimido, havia permanecido em Roma.

Mary morreu dia 30 de janeiro de 1645 e foi sepultada numa igreja protestante na vila de Osbaldwich por um ministro que foi “honesto o bastante para ser subornado” (a breve relação). De seu túmulo não há sinal, mas dentro da igreja, firmemente cimentada na parede, está a pedra memorial com os dizeres:

“Amar os pobres perseverar nesse amor viver e ressuscitar com eles foi tudo o que almejou Mary Ward que tendo 60 anos e 8 dias morreu em 30 de janeiro de 1645”.

A HISTÓRIA: SEGUE

O Instituto original de Mary Ward fundado no início do século XVII, foi confirmado pela Igreja em 1877. No meio do século XVIII e XIX, o nome de Mary Ward foi proibido de ser associado ao Instituto. Em 1909 recebeu reconhecimento oficial como fundadora. Em 1978, com a aprovação da Sociedade de Jesus, as Constituições das Sociedades foram liberadas para o Instituto, pedidas já em 1621.

A fundação inicial foi em St. Omer em 1609; hoje o IBVM é encontrado na Alemanha, Áustria, Itália, Espanha, Hungria, Romênia, República Tcheca, Eslováquia, Argentina, Brasil, Chile, Índia, Coréia, Zimbábue, Sibéria, Rússia, China; na Inglaterra, em York, Cambridge, Norwich, Sheringham, Ascot, Saftesbury e Norte de Londres.
O ramo de Loreto, iniciado a partir de York, por Frances Ball, na Irlanda em 1821, também está em vários continentes. O ramo da América do Norte foi fundado pela Irlanda em 1847, por Teresa Dease, estabelecendo-se no Canadá e EUA. Os ramos têm Mary Ward como fundadora e se relacionam entre si em trabalhos apostólicos e no trabalho de interpretação do carisma de Mary Ward.

“Os verdadeiros membros desta companhia acostumam-se a agir não por medo, mas somente pelo amor, porque fomos chamadas por Deus para a vocação do amor.” (Mary Ward).

 Por Gillian Orchard IEBVM
Primeira edição, 1985; Edição revisada, 1997; Printed by Vário Press Ltd, Marish Wharf, St. Mary’s Road, Langley, Slough, Berkshire SL 3 6DA. Tradutora: Ir. Isabel Teixeira do Prado, CJ.

 

20/09/2010 - Papa Bento XVI recorda Mary Ward. Clique aqui para saber mais.

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